Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
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OS CRIMES PASSIONAIS E OS DILEMAS DE DOM CASMURRO, EUCLIDES DA CUNHA E AMOS OZ EM A CAIXA PRETA.


          Há tempos que não escrevo um texto, isto no sentido literal de escrevinhar lançando sobre o dócil papel minha caligrafia incompreensível. Hoje, porém, aqui em Maceió, voltando depois de muito tempo ao Palato, lugar que sempre me inspirou e ao qual cheguei hoje sem qualquer compromisso, exceto acender um charuto, tomar uma taça de vinho tinto ou beber duas ou três cervejas importadas, não resisto à mania de escrever, já que, providencialmente tenho às mãos uma caneta e um caderno imaculado, exceto por alguns desenhos e garatujas feitas por minha pequena Maria Laura. Olhando alguns posters de Linda Evangelista e Orson Wells, entre outros, fumando charutos, eu, também cumpro um ritual para degustar meu cubano e, enquanto isto, idéias e pensamentos me vem à mente. Neste mês de dezembro dois crimes de natureza passional me chamaram a atenção. Um deles, teve repercussão até na imprensa mundial. Como vocês sabem, a internet noticia tudo, tudo mesmo. No primeiro caso, numa festa de casamento que tinha tudo para divertir os convidados e ficar para sempre como um registro alegre na vida dos nubentes terminou numa tragédia, pois o noivo, já alta a madrugada, saiu dizendo que iria pegar uma surpresa para a noiva e quando voltou, após beijar-lhe a testa, deflagrou um tiro contra a mulher, matando-a imediatamente. Depois, atirou em outras pessoas, matando o padrinho do casório e, finalmente, atirou contra sua própria cabeça, suicidando-se. O caso, por si só, já chamaria a atenção de todos, mais a repercussão foi maior ainda porque o local da festa era um condomínio de classe média nos arredores do Recife. Desgraça desse tipo quando envolvem pessoas bem sucedidas do ponto de vista material, alavancam as vendas dos jornais e a audiência dos famigerados programas policiais das rádios brasileiras. Hipóteses e mais hipóteses, algumas claramente absurdas foram ditas para explicar o motivo dos crimes. É muito provável que o ciúme tenha sido a causa dos crimes, o móvel, como gostam de frisar promotores, juízes e advogados em suas peças jurídicas. Dias depois, um outro crime de natureza passional, bem menos comentado, também foi divulgado pela internet. Aqui mesmo em Alagoas, na cidade de Santana do Ipanema, numa casa humilde, um marido enciumado atirou três vezes contra sua mulher e depois, meteu uma bala em sua própria cabeça. Neste último caso, a mulher conseguiu sobreviver, mas o marido bateu as botas. 
     
           O ciúme, desde tempos imemoriais sempre despertou sentimentos de vingança e ódio, sendo motivos de crimes até mesmo entre os deuses da mitologia clássica. Homens e mulheres, uns mais e outros menos, um dia ou outro sofrem por ciúme. Sócrates definiu o ciúme como “ a dor da alma”, e talvez seja assim mesmo, por assumir, em alguns casos, um problema psicológico invencível. Outros o definem como uma doença. O fato é que, nos casos extremos, o ciúme leva ao ódio, à vingança e aos crimes passionais. 

     
            Bentinho, o atormentado personagem de Machado de Assis, em Dom Casmurro viveu toda a sua existência, pode-se afirmar, remoendo os ciúmes que tinha de sua linda, amada e dissimulada Capitu. O livro do Bruxo do Cosme Velho fez duzentos em 2000 e centenas de teses e outros livros foram escritos para explicar se Capitu traiu, ou não, Bentinho. Como disse um dos críticos, os autos deste processo, embora mortos há séculos seus protagonistas, estão insepultos e são revistos diariamente por olhares curiosos e especialistas em literatura, direito e psicologia. Teve quem dedicasse toda uma vida acadêmica e literária para desvendar os segredos de Dom Casmurro. A maioria das pessoas que gostam de ler e que tiveram a oportunidade de conhecer este livro ainda na adolescência, fizeram releituras e, com o passar dos anos, talvez tenham mudado seu veredicto sobre Capitu. Eu mesmo, depois de duas releituras do ano passado, com grifos e anotações numa edição de bolso, estou convicto de duas coisas. A primeira é que se Capitu de fato traiu Bentinho com Escobar, o maior culpado foi o filho de Dona Glória, tantas oportunidades deu ao seu amigo Escobar de conviver com sua amada. A outra, me desculpem, mas acho que, na verdade, Bentinho era um homossexual enrustido e nutria um amor platônico por seu colega de seminário. Millor Fernandes, meio brincando, meio “de vera”, catalogou inúmeras passagens do livro que revelariam essa faceta de Bentinho. 

         
   Assim, de fato, teria sido Bentinho quem traíra Capitu ante seu desejo pelo amigo que era “interessante de rosto, a boca fina e chocarreira” e de “nariz fino e delgado”, que, além de tudo isto, “era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugidios”  e que entrou em sua alma, “uma casa de janelas para todos os lados....mas como as portas e janelas não tinham chaves e nem fechaduras, bastava empurrá-las e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou...”
            Envolto em seus ciúmes, fosse por Capitu ou Escobar, o personagem machadiano ganhou o apelido apropriado de Dom Casmurro, tal seu azedume diante da vida. Mas, apesar de tudo isto, não matou Capitu, embora, muitas vezes tenha desejado a morte de Ezequiel, o único filho que o casal teve. 
          
            Remoído de ciúmes, talvez tanto de Capitu quanto de Escobar, Bentinho teve uma vida triste e nunca lhe chegou coragem, ou loucura para atos extremos como os maridos que matam suas mulheres e seus amantes ou, mais infelizes ainda, como foi o caso de Euclides da Cunha que, corneado por sua esposa Anna, tentou matar Dilermando, o amante dela, mas que terminou sendo morto por este, o qual depois, casou-se com Anna e, tempos depois, à tragédia familiar se agregaria mais desgraças quando um filho de Euclides da Cunha, tentou vingar a morte do pai, e, também, foi assassinado por Dilermando.      
        
         Finalmente, para terminar esta crônica sobre o ciúme relembro um personagem do livro “A caixa preta” do israelense Amos Oz. Nele, Alex Guideon, um famoso e enriquecido professor universitário, com passado de comandante militar, agora, já um homem velho, vê ressurgir do passado sua infiel mulher Ilana que, através de cartas ácidas e repletas de cobranças, cobra-lhe culpas e dinheiro. Culpa-lhe por suas traições, culpa pelos problemas causados pelo único filho que tiveram e quer dinheiro, muito dinheiro para reparar todas essas culpas. Numa das passagens do livro, o professor Guideon revela que, um dia, quando voltava dos campos de batalha e trazia consigo uma pistola de uso militar, percebeu sinais evidentes de que, mais uma vez, fora traído e, na sua ira, bateu violentamente na esposa e, irritado com a intervenção do pequeno filho que saiu em defesa da mãe, bateu a cabeça dele contra a parede até manchar de sangue seus cabelos aloirados. Neste dia, escreve ele que poderia ter atirado na mulher, no filho e, depois, se suicidar, porém não os matou, mas, “na verdade, eu fiz mesmo isso, e desde então nós três temos sido um sonho”. 
         
        Isto aqui é uma pequena crônica a respeito do ciúme, mas o tema é matéria suficiente para tratados suficientes para encher uma biblioteca. E, por mais que a sociedade evolua, os crimes passionais violentos ou patéticos continuarão a acontecer.
 
 
 
 
 
 
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 31/12/2010
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