Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
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10. Hecatombe na Vila do Jacaré.
 
            Era costume dos grandes chefes e particularmente de Zé Bebelo, participarem das festas dos povoados pequenos. Nesses tempos, vestiam-se do melhor e a cavalaria de jagunço entrava na rua do povoado em marcha de desfile. Atrás, para não assustar os animais, dois ou três jagunços vinham soltando foguetório e muitos cantavam.
            A entrada triunfal encantava a meninada e os moços. As mocinhas, receiosas, espiavam pelas brechas das portas, mas depois que a poeira assentava e o padre e as outras autoridades do lugar davam às boas-vindas, tudo se acalmava e era uma alegria geral.
            Mas nem sempre a recepção era amistosa. Quando não era, a cavalaria troteava forte,  assustando todos. Espingarda, rifle, revolver, reíuno e tudo quanto era pau-de-fogo falava. Dominada a situação, mandavam tocar o sino da igreja, arrombavam a cadeia, soltando os presos, arrancavam o dinheiro em coletoria, e ceiavam em Casa-da—Câmara. Num povoado conhecido por Jacaré, o bando recebeu notícias e garantias de que seria recebido com as honras e rapapés de protocolo, pelo chefe político local, um fazendeiro conhecido como Seu Zezinho da Marambaia. No domingo aprazado, por volta do meio-dia, os chefes na frente, a jagunçada se perfilou diante da Casa da Câmara à espera dos cumprimentos e honrarias.
            Seô doutor, o senhor não imagina.
            Era uma tocaia, uma armadilha.
            Não tinha boas-vindas. Ali tinha coisa, doutor. Deu de soprar um vento, um redemunho. O senhor sabe o que é um redemunho?
            O Diabo, na rua,  no meio do redemunho.
            Era O Dado, O Danado, era coisa do Dos-Fins, só podia de ser.
            Choveu bala, um verdadeiro balalhar. O uim uim uim dos rifles e papoucos dos revólveres.
            Acostumados às surpresas e repentes da traição, os chefes gritaram ordens.          Muitos se abrigaram, com cavalo e tudo, dentro da igreja que, por sorte, estava aberta.
            No meio desse tiroteio, Coscorão, afoito que nem o vento, subiu à torre da igreja e se conta que, sozinho, matou prá mais de quinze soldados, que haviam sido encurralados pela tropa de jagunços comandada por Dimas Dôido, que, por estratégia de segurança, somente chegara ao Jacaré depois, dividida em duas colunas: uma pela retaguarda e outra pela dianteira. O senhor carecia de ver. Foi o maior tiroteio visto nesses sertões.
            O domingo se encheu de pólvora.
            O Dimas Dôido entrou ali com gosto de sangue na boca, disposto a matar qualquer vivente e quando a jagunçada dominou a situação, ele atravessou uma bala na cabeça do sacristão e ameaçou esquartejar o infeliz.
             Crédo, que veio na retaguarda com Dimas Dôido, sangrou o dono de uma botica, depois de encontrar o homem escondido debaixo da própria cama, com um revólver ainda quente.
            Marruaz, outro desajuizado, botou o cavalo dele para beber água da pia batismal da igreja. Uma heresia.Marimbondo, tirou a virgindade da filha do boticário, em resposta ao escândalo dela pela morte do pai.
            Jiribe ateou fogo em quatro casas, aos gritos e tiros.
            Jõe Bexiguento, sobrechamado o Alparcatas, que gostava de contar causos, quebrou o cadeado da cadeia à bala e, enfurecido porque não havia nenhum preso ali dentro, enforcou o carcereiro nas grades da cela. Outros mataram tantos outros.
            Quim Queiroz, que dava munição dava conta, a certa altura gritou que parassem com todo aquele rebuliço, pois não havia mais a quem matar.
            Cessado o fogo, Raymundo Lé, com a ajuda de Doristino, foram cuidar os jagunços feridos. Raymundo Lé, puçanguara entendido de curar qualquer doença, chamou o Doristino para lhe auxiliar, no cozimento de ervas medicamentosas.
            Outro que cuidou dos feridos, que não eram poucos, foi o Justino, que tinha ofício de ferrador e, diante de tanto sangue, chegou a desmaiar.
            O tal do Zezinho da Marambaia?
            Teve morte triste, pisoteado por mais de trinta cavalos.
            As mulheres de sua casa serviram a muitos jagunços, até mesmo as negras da cozinha.
            Todas as casas foram saqueadas, levando-se ouro, prata e dinheiro. Até relógio de parede serviu ao botim.
             Lindorífico, chapadeiro minas-novense, com mania de aforrar dinheiro, saiu com os bolsos cheios de muitos contos, depois de descobrir uma botija numa casa de uma cega.
            Salústio João, um urucuiano de cabelos compridos, roubou até as oferendas da igreja e visto que o padre estava macomunado com as tropas do Governo, ninguém lhe repreendeu.
            O Dimas Dôido, bebeu do vinho do padre, sêo moço, que é coisa que não se faz.
            Assunciano um cabra magro, meio entortado...mas ovante, barrigudo mediante, juntamente com seu filho Sinfrônio pegaram o Tenente Luiz Gomes, comandante governista, no tapa e arrastaram até à porta da igreja, aonde, apanhou para mais de duas horas e morreu de boca fechada, sem revelar planos nem apoios.
            Teofrásio, que era catrumano, valente desmedido e que chegara ao bando portando uma velha garrucha e naquela época já atirava de fuzil, percorreu as fazendas das redondezas, liderando um pequeno grupo, depois de ter pintado miséria, retornou ao vilarejo com o dever cumprido.
             Duvino, que de tudo armava risada, voltou sem dar uma palavra, na companhia do Teofrásio. Depois daquele fogo, Duvino desapareceu. Desertou do jaguncismo, vomitara quando viu Ventarol  bolinar numa menina de treze anos, que aos berros implorava compaixão. Esse homem, o Duvino, saiu escondido, na calada da noite, sem dizer uma palavra e nem pedir licença, sô.
             O endiabrado do Ventarol foi esfaqueado pelas costas, por um irmão da mocinha e foi um dos muitos mortos do bando.
             Além de Duvino e Ventarol, o Acrísio, o Triol, o Assunção, o Vove, o Jenolim e o Admeto, acompanharam Teofrásio, assim como o João Vaqueiro.
            Esse Acrísio era homem de muita valia, veio das cabeceiras do das Velhas, reclamou do proceder de Ventarol, mas não quis tirar satisfação.
             Triol matou gato, cachorro e lascou fogo até em ovelha. Este não era bruto, agiu assim, porque não suportava traição.
             Assunção, era quase um menino, mas cumpriu as ordens de Teofrásio e recebeu destes muitos elogios.
            Vove, homem feito, quando a poeira assentou e já gozavam descanso, relatou aos chefes todas as ocorrências, uma vez que a tanto foi intimado.
             Jenolim foi ferido gravemente e três dias depois faleceu pedindo que mandassem recado para sua mãe, mas que noticiassem morte de maleita, pois de tiro ela não agüentaria.
            João Vaqueiro foi outro que teve ferimento grave, mas não lhe deram licença para morrer e, com emplastros e chás, ficou totalmente curado, embora o braço esquerdo tenha ficado esquecido. Por sorte sua, não era canhoto.
            João morreu de velho, muitos tempos depois de sair da vida jagunceira. Dizem que foi morar no Goiás. Era sujeito calmo, quieto e amigo.
            Má sorte teve Admeto, que gostava de cantar, foi morto quando o grupo de Teofrásio retornava para o Jacaré, foi o último jagunço morto naquela covardia. Morreu gemendo baixinho, sem dar vexame, sêo doutor.
            Outros jagunços tombaram ali.
            Freitas Macho morreu dois dias depois, de um ferimento no vão da barriga, banda-da-mão-direita, remédio de chá não produziu nele o vero efeito.
            Pitolô, foi derrubado por arma disparada não se sabe de onde. Era cabra com crimes nos maniçobais perto para de de Januária, mas morreu assim....de morte besta, sô.
            Morreu muito mais jagunço doutor, na redemunho, no meio da rua.
            Zé Onça, das bandas de Pintangui, foi alvejado na testa. Não teve tempo de nada.
            José Micuim, de passado desconhecido, foi morto igualmente a Zé Onça, ali no meio da rua.
            Pedro Pintado, que nunca usou um chapéu, morreu quando olhava o céu, acertado por quase uma dúzia de balas.
            Zé Paquera, natural de Pirapora, arrumava o cabelo, vaidoso, quando se deu início ao ataque, morreu com um pente na mão esquerda.
            Pedro Afonso, daqui mesmo, ainda teve tempo de usar o rifle e deve ter matado alguns, pois seu olhar de morto era de satisfação.
            Pereirão, filho bastardo de fazendeiro de Diamantina, quebrou a porta da casa de onde partiam os tiros em sua direção. Usou o cavalo alazão como escudo e seu corpo ficou estendido na calçada.
            Zé Beiçudo, um negro geralista, não morreu, mas passou quase um ano para voltar a andar. Pediu para lhe matarem, na retirada, de tanta dor que sofria. Ninguém atendeu àquele desatino.
            Jalapa, mateiro, coitado, foi esfaqueado nos primeiros momentos do perigo. Morreu sem apelo.
            Remigildo, menino, menino mesmo, morreu chorando, mas ninguém pode lhe socorrer, pois foi um dos primeiros a cair no uim uim uim dos tiros.
            Trigoso, um sujeito com as mãos pampas, adoentado de sarará, morreu matando, com certeza.
            Uma das mortes mais sentidas, vou do velho Nhô Faísca, que era respeitado até pelos maiorais. Recebeu tiro de clavinote no pescoço, enquanto tranqüilo, fazia um cigarro em cima de seu cavalo baio, na hora traiçoeira em que entraram no Jacaré.
            Do povo do Jacaré, morreu muito mais, porém não lhe adianto nomes nem histórias, pois quase nada fiquei sabendo.
            Ao final da tarde, no povoado do Jacaré não tinha mais viva-alma que se atrevesse contrariar a jagunçada e quem quis se aproveitou das mulheres.
            Das casadas e das virgens.
            Não adiantou o choro delas.
            Os chefes, confabulando dentro da igreja, enviaram emissários aos fazendeiros da região, lhes cobrando continências e honrarias.
            Noite avançada, começou a chegar dinheiro, comida e cavalos novos para a jagunçada, que somente ao amanhecer arredou pé daquele lugar miserável, deixando um rastro de dor e ódio nos poucos que sobreviveram.
            No cemitério de lá, nenhum jagunço foi enterrado, pois os mortos foram levados para perto de uma cachoeira duas léguas mais adiante.
            Aquilo lá, doutor, a vilazinha, virou um ribeirinho de sangue, o chão todo encarnado-escuro. Era, como disse o doutor Rosas: o Diabo na rua, no meio do redemunho. Povo de lá fez trato com o Mafarro, O que-nunca-se-ri, daí a desgraceira que se assucedeu.
Aquilo era lugar atrasado, que nem bordel possuía. Merecia ser varrido dos mapas.
 
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 18/09/2011
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