Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
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10. A sentença de Zé Bebelo.
            Retomemos ao julgamento de Zé Bebelo, seô doutor?
            O caso do turco? 
            Eu falo, o senhor escuta.
            Chamava, de nome civil, Kalil Ebel, porém ficou conhecido nesses sertões como seô Kalibel.
            Esse turco, nem sei se mesmo é turco, pois diz que nasceu no Líbano.
            Quem nasce no Líbano é turco, doutor?
            Mire e veja. Libanês é um coisa, turco é outra, mas aqui o povo acha igual: turco.
            Esses libaneses, turcos e outros da mesma origem, são todos mascates.
            Vendem de tudo que o senhor possa imaginar.
            Acho que foram eles que inventaram o fiado.
            Esse seô Kalibel andou aqui no Liso do Sussuarão, há poucos anos atrás, entre 68 e 69, vendendo tudo em cima de um caminhão.
            Tecido, roupas, panelas, jogos, santos, pregos e parafusos, ele vendia.
             Papéis e lápis, facas e tesouras, também.
            Cordas e velas.
            Sortimento geral.
            Veio abeirando-se pelo Do Chico.
            De fala engraçada, mas de palestra fácil, gostava de pitar um charuto e não dispensava uma boa cachacinha.
            Contou que escapou de uma zagaia que armaram para ele, nas cabeceiras do Jequitinhonha.
            Dia de domingo, bom prá vender e comprar, com mercadoria exposta, disse esse seô Kalibel que apareceu um fazendeiro interessado em vários artigos, acompanhado de uma filha, que não tirava os olhos dos tecidos, bicos, babados, pós e perfumes.
            Pensando que a venda estava certa, ficou triste quando o homem disse que não tinha o direito da entrada.
             Não seja por isso, falou seô Kalibel, paga depois, sem juros.
            O fazendeiro propôs ao turco pernoitar na fazenda dele, de nome Monte Alegre, e lá pagaria a entrada.
            O homem não pensou duas vezes e lá se foram. Ao avistar a casa, o cafezal imenso e a boiada da propriedade, os olhos do turco se encheram de alegria e, por ele, vendia tudo à família.
            Abriu crédito de banqueiro, diante das garantias.
            Moça, perfumaria igual a esta não se encontra nem na capital, disse abrindo um baú cheiroso que misturava alfazema e almíscar. A menina, satisfeita, foi escolhendo um pó, um perfume. Em pouco tempo, havia escolhido um enxoval de perfumaria, fitas, babados, pentes, escova, espelhos e enfeites. Dava até gosto, de se ver a alegria da mocinha.
            O pai também escolheu com os olhos, explicando que há muito que a casa estava precisando de lençóis, toalhas, panelas, vidros e outros cuidados. O turco não se cansou de abrir e fechar baús e mostruários.
            Como lhe disse, de prego a papel e vela, Kalibel vendia e quando se pedia mercadoria que não tinha, anotava e dizendo que na próxima viagem a mercadoria estaria nas mãos do freguês e, com desconto especial, uma pechincha. E repetia, uma pechincha.
            Vendas acertadas, foi oferecido jantar e dormida para o bufarinheiro e ele aceitou de bom grado. Depois da comida, a conversa foi boa, tendo o fazendeiro fumado um dos charutos cheirosos de Kalibel e este se servido da cachacinha da casa.
            Mas, turco, doutor, é turco e, mesmo confiando, desconfia. E esse era o caso. Na hora de dormir, por via das dúvidas, ao invés de deitar na cama, amontoou umas coisa em cima do colchão e deitou-se enrolado numa manta, num canto escuro do quarto.
            Raça de turco é precavida, sô.
            Também pudera, desde a Bíblia que esse povo vive de brigas e intrigas.
            Fez bem a desconfiança a seô Kalibel, pois, à meia-noite, caiu do telhado uma zagaia de pau afiados sobre o colchão. Vendo aquilo, seô Kalibel, armou-se de seu punhal e ficou atrás da porta. Imediatamente entrou o fazendeiro pai da moça e quando o homem se debruçou sobre o colchão, o turco comeu-lhe a faca no pescoço e nos costados.
            O homem morreu ali mesmo, sem tempo de gritar. Assustado, o turco foi procurar a moça, mas nem sinal da donzela e nem da preta velha.
             Aquilo lhe deixou atordoado e resolveu esperar o dia amanhecer.
            Com a luz do dia, achou a velha enforcada num porão e a mocinha estava amarrada, com a boca tampada e rosto encoberto, no armazém de café.
            A menina estava com rosto coberto, de sorte que não via nada. Quando viu o turco lhe tirou o capuz e a mordaça, ela começou a gritar alto, implorando que não lhe fizesse mal.
             Ora, fazer o quê?  Quem lhe fez isso, menina?
            A moça disse que achava que tinha sido ele que tinha lhe amarrado, pois já acordara com os olhos vendados e o homem que lhe amarrara tinha o cheiro de seu charuto.
            Recordou-se o turco que, antes de irem dormir, palestraram um pouco e oferecera um de seus charutos ao fazendeiro. Fora ele quem amarrara a filha, matara a velha e aprontara a zagaia certamente para culpar o turco desses crimes e justificar sua morte.  Ao final, ficaria com o caminhão e as mercadorias.
            Foram à cidade e esclarecidas as coisas, apareceu mais de meia dúzia de vizinhos, para contar as maldades do fazendeiro. A mãe da moça mesmo, disse seô Kalibel, morreu de tanta judiação. E diziam que ele tinha um caso com a preta velha, quando ela era mais nova.
            A menina desamparada e o turco viúvo, a coisa deu em casamento, depois da mocinha se aconselhar com o vigário do lugar.
O turco anda por estes sertões com a luz mais brilhante que já se viu, tamanha a formosura daquela moça dona. Criatura delicada, dessas que encantam platéia de circo, destacamento de polícia, conselho de júri, o que o senhor mais imaginar. Olhos negros amendoados e pele macia, com os cabelos lisos servindo de moldura.
            O senhor concebe?
            É por isto que lhe disse que não duvido de nada.
             Esse mundo é indecifrável.
            O nome dela?
            Amália.
            Outro dia um caixeiro viajante, montes-clarense andou falando desgraças acontecidas com o turco e a luz desses sertões. Fiquei aqui matutando se era verdade ou inveja. Aí se mistura inveja e amor, ou amor e inveja, quem sabe?  O que dizer do amor? O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.
            Eu lhe pergunto de novo: o senhor concebe?
            Zé Bebelo?
            Eu falo mais que Riobaldo, né mesmo?
            Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo.
            Mas, aquilo foi um júri e tanto, já lhe disse.
Zé Bebelo estava nas mãos do príncipe dos sertões: Joca Ramiro
Sabia que sua morte era desejo da maioria, apesar do valor dos que lhe defendiam.
Naquelas horas deve de ter pensado sobre todo o seu passado, seus sonhos, sobre o nascer e o por do sol, o dia e a noite.
Claro e escuro.
Dor e alegria.
Aquele homem amigo da alegria, contente com tudo e justo nos moldes da justiça, agora estava ali à mercê de seus inimigos. O chefe jagunço que, encontrando boiada pequena nas travessias não cobrava imposto, por respeito ao trabalho dos outros e que pregava a ordem, no meio do triste sertão, justo este, estava ali com a corda no pescoço.
            Justiça ou desjustiça?
            Por que julgavam Zé Bebelo? Por andar a soldo do governo. Perseguir chefes jagunços. Por querer ser deputado. Por não ser do sertão.  Motivos não faltavam.
            O clima era de festejos, o maior bafafar. Sô Candelário tinha remetido dois homens, longe, no São José Preto, só comprarem foguetes, que no fim teriam que pipocar.
            As coisas esquentavam e esfriavam a depender de onde soprava o vento. Entre condenar e absolver. Aí Riobaldo deu a idéia do desterro para outro Estado, que caiu nas graças dos defensores de Zé Bebelo e desagradou os hermógenes e os cardões. Joca Ramiro,, ciente de suas responsabilidades com presidente daquele tribunal, pontuou no ponto certo: o julgamento é meu, repetiu. E declarou a sentença: desterro. Deveria o réu partir dali, somente provido de um cavalo e mantimentos para uma semana, para longe, mais longe que a Bahia e nunca mais voltar. A proibição duraria enquanto o rei das gerais tivesse vida, ou desse contra-ordem. Encerrado o julgamento, todos foram à sede da Fazenda Sempre-Verde, que havia sido cedida para as comemorações do resultado.
Pipocou fogos. Pá, pó, papoco. Bum.
Todos tomaram goles de cachaça da boa.
Todos pegando o que comer, que eram essas grandes abundâncias. Angú e couve, abóbora moranga cozida, torresmos, e em toda fogueira assavam mantas de carne. Quem quisesse sôpa, era só ir se aquinhoar na porta-da-cozinha. A quantidade de pratos era que faltava. Àquela altura, Zé Bebelo já tinha ido embora, para sempre, em cavalo de duas cores, sem fazer poeira. Partiu no rumo do Paracatú, donde depois fica o mundo muito mais largo.
Foi embora nas veredas que levam ao Goiás.
 
 
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 18/09/2011
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