Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
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DORMINDO PROFUNDAMENTE


A recompensa dos mortos é não morrer nunca mais, como afirmou Nietzsche, mas há uma outra frase, da qual gosto muito e sempre penso nela no dia de finados:  Deve-se consideração aos vivos; aos mortos apenas se deve a verdade, que foi dita por Voltaire.
Hoje, ao amanhecer do dia voltei meus pensamentos para os meus mortos, revendo-os. Minha avó, meu pai, meus tios, primos, meu irmão que eu nem sequer lembro, alguns amigos, uma criança abandonada por entre os escombros do terremoto que devastou o Haiti e muitos outros. Um primo que faleceu recentemente. Para todos eles, um instante de reflexão. Depois, me veio a vontade de ir a uma igreja, mas, aqui perto, na zona rural de Riacho das Almas, a única igrejinha estava fechada e não pude, de maneira mais formal, rezar por eles. Ao meio-dia tive que ir à cidade e encontrei uma verdadeira multidão na entrada e ao redor do Parque dos Arcos, o moderno cemitério de Caruaru. Na volta, perto das 17:00 horas, poucas pessoas ainda continuavam no local, mas estas traziam os semblantes entristecidos e denotavam o medo de perder a hora de prestar homenagem aos entes queridos. Longe do lugar aonde estão enterrados meus ancestrais, tive vontade de parar e entrar e rezar por todos os mortos do mundo, inclusive por alguns conhecidos que sei que ali repousam, entre eles, Isabela, uma linda menina que se foi precocemente. Subi a Serra Verde, aqui para Riacho das Almas, pensando em Isabela e na dor de sua morte. Logo depois, a lembrança de Isabela e dos meus outros mortos se dissiparam e aproveitei para apreciar meus filhos pequenos brincando e me alegrei com a chegada dos mais velhos, inclusive de Luiza, minha neta, filha de Tiago, que era casado com Isabela. Clarice, minha filha mais velha, chegou com o namorado depois que Tiago e família foi embora. Enquanto isto, os meninos pequenos brincavam com a participação de um menino aqui do sítio, órfão de pai e mãe, que vive sob os cuidados de um casal do qual não é parente. É Pedro, um galego de apenas 09 anos de idade, mas que sabe montar e cuidar de cavalos. Meu filho caçula, Heitor, lhe chama de Predo. Predo!
Agora, aproveito a solidão para escrever, da varanda, contemplando as luzes distantes de Caruaru, enquanto meus pensamentos se voltam para os meus mortos, novamente. Sei que eles nunca mais morrerão. Isso é fato, diria uma jovem amiga. Mas, a eles, também, confesso apenas as verdades das minhas dores, sofrimentos, alegrias e esperanças.
A é noite fria e o silêncio é acompanhado pela harmonia dos grilos, outros isentos e aves noturnas. Sopra um vento gostoso que deve vir do mar distante e assim, aproveito para pedir que ele leve meus pensamentos aos meus mortos, sem contudo, lhes despertar, vez que, agora, eles estão dormindo profundamente, mas tenho a impressão de minha avó sorriu.

Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 02/11/2011
Alterado em 02/11/2011
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