Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
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ACONTECEU NA NOITE DA MISSA DO GALO
 
 
            Tal e qual Nogueira, o estudante ainda metido na adolescência, que saíra de Mangaratiba para estudar no Rio de Janeiro, lá pelos anos 1860 e experimentou um inesquecível encontro , eu também vivi, exatamente na noite do Natal de 1958 algo semelhante. 
          Aconteceu na cidadezinha em que nasci, no interior das Alagoas, cujo nome prefiro omitir. Ainda iluminação pública regular, mas, como era noite de Natal, foi acionado um motor a óleo diesel e suas poucas ruas ficaram parcamente clareadas pela primeira vez, o que já tornaria aquela noite inesquecível. Órfão, eu morava com minha avó materna e esta tinha o costume de oferecer aos vizinhos parte das guloseimas que ela preparava para a ceia da própria família. 
          Na casa de frente à havia chegado uma senhora de 35 ou 36 anos de idade, que tinha enviuvado naquele ano e passava dificuldades com seus três filhos pequeninos, já que seu marido não lhe deixou nada além da prole.
          Pouco antes da Missa do Galo fui destacado pela minha avó para levar um bolo à casa da viúva. 
          Devidamente paramentado para a ocasião da Missa do Galo bati à porta e ouvi a voz da dona da casa mandando que entrasse. Entrei e me detive na sala simples, sem saber se ficava em pé ou sentava, já que ela estava ninando uma das crianças. Com um sinal de silêncio, mandou que eu sentasse. Prontamente obedeci, enquanto ela levava o menino para o quarto. Minutos depois ela voltou e aí percebi a beleza de seu rosto branco, ornado por longos e espessos cabelos negros, perfeitamente divididos numa linha reta sobre a cabeça. Disse eu me lembro perfeitamente, já que, passado tanto tempo, faço confusão a respeito do acontecido e, às vezes, até acredito que minha imaginação de velho é muito mais fértil que meus olhos de menino. 
          Ela tinha uma pele delicada e seus lábios tinham uma leve pintura rosa. Aproximou-se, pegou o bolo e, sorrindo, disse que minha avó não precisava ter tido esse incomodo, mas agradecia, até mesmo porque não tivera tempo de fazer nada para cear, já que os três meninos andavam gripados. Pôs o bolo sobre a toalha branca da mesa, partiu uma fatia para mim e outra para ela. Sentou-se ao meu lado. Hoje fico, realmente, confuso se a perna dela tocou a minha ou se ela pôs uma mão sobre a minha coxa ou se nada disto aconteceu. O fato é que, embaraçado com sua proximidade terminei por derrubar o bolo sobre minha camisa. Menino! Repreendeu ela com graça e disse que eu precisava limpar a camisa, senão ficaria manchada. Segurando-me pela mão direita me levou para a cozinha, pegou um pano molhado e começou a retirar a mancha,  mas, como  não saia fácil mandou que eu fosse ao banheiro, tirasse a camisa e lhe entregasse pela porta. Dentro do banheiro ouvia as batidas do meu próprio coração, mas consegui retirar a peça e entreguei pela porta entreaberta. Logo depois ela disse que tinha retirado a mancha e me devolveu a blusa, da mesma forma. Vesti-me e quando sai do banheiro ela se aproximou, passou a mão sobre o meu peito e disse que tinha ficado bom. 
          Depois mandou que eu fosse embora, pois já estava tarde e eu terminaria por perder a missa. 
          Na igreja, vi seu rosto em outras mulheres e quase não conseguia acompanhar a celebração, o que, também, credito aos meus dezesseis anos.
          Dias depois, ela voltou para União dos Palmares, para morar na casa de seus pais, levando apenas seus filhos e a pequena mobília. 
          Esta é a lembrança mais persistente que tenho do Natal, passado esses cinqüenta e poucos anos.
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 27/12/2011
Alterado em 27/12/2011
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