Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
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À PROCURA DOS IRMÃOS KARAMÁZOV
 
 
 
 
            Em férias prolongadas dei-me ao prazer de leituras demoradas, entre as quais Crime e Castigo, do russo Dostoiévski. Reencantado com a escrita desse gênio, mal terminei Crime e Castigo, planejei ler Os Irmãos Karamazov e aí começou uma verdadeira aventura à procura do livro. Na casa dos meus pais havia uma coleção clássica, editada pela José Olympio, em 1962, em 15 volumes de capas duras na cor grená, contendo uma pequena faixa verde-escura e os títulos em letras douradas. Linda e e imponente, impressiona até mesmo quem não tem gosto pela literatura. Com a morte de meu pai, terminei me apossando de seus livros, mas, depois de um casamento desfeito, idas e vindas, além de uma noite de chuva torrencial em Garanhuns, já não sabia do paradeiro dos livros de Dostoiévski, tanto assim que li Crime e Castigo numa edição de dois volumes, reeditada pela Abril, comprada, para minha felicidade, num posto de gasolina às margens da BR 232, no distrito de Varzinha, próximo à Cidade de Serra Talhada. Relembro que, no início dos anos 90 fui morar, pela primeira vez, em Garanhuns e à falta de espaço na pequena casa alugada, fiz de sua garagem minha biblioteca, entretanto, o local foi inundado numa noite chuvosa e muitos livros desapareceram e outros ficaram estragados. Agora, decorridos mais de vinte anos, não me lembrava do paradeiro dos livros e, então, fui obrigado a procurar o desejado Os Irmãos Karamazov, mas isso não seria tarefa fácil.
 
            Estando passando uns dias reclusos aqui nas alturas da Serra Verde, na vizinhança de Caruaru, fui à cidade comprar o livro, já sabendo que poderia ter alguma dificuldade. A primeira livraria que procurei, em um dos dois shoppings da cidade, havia sido fechada dias antes.  Restavam duas outras livrarias. Fui a uma delas e descobri, para meu desgosto, que apesar de imensa se tratava apenas de uma papelaria. Livros, somente de auto-ajuda. Na segunda, A Estudantil, faça-se justiça, encontrei outros livros de Dostoiévski (O Idiota, O Jogador e Crimes e Castigo). À falta de sebos ou alfarrábios em Caruaru, estive, inutilmente, em várias bancas de revistas. N´algumas delas, achei Crime e Castigo e O Idiota em edições populares, registro.
 
            Dispondo de muito tempo e decidido, resolvi ir até Recife e, na livraria Imperatriz, do Shopping Tacaruna, quando eu pronunciei o nome do livro desejado, a atendente fez uma cara de espanto e disse: “Cara o quê?”. Parecia até que eu tinha dito alguma pornografia. Na livraria Poty encontrei o livro, mas numa edição que não me atraiu. Na Livraria Brandão, da Rua da Matriz, na verdade o Sebo Brandão, encontrei algumas edições, porém bastante empoeiradas, o que me fez desistir da compra. Finalmente, me dei por vencido e fui até à livraria Cultura, do Paço Alfândega e não resisti aos encantos da cuidadosa edição em caixa da Editora 34.
Ali mesmo, no café da livraria, dei início a leitura do drama envolvendo o devasso velho Karamazov e seus três filhos. Três? Não. Quatro. Quatro, isso mesmo, pois com certeza, um dos serviçais da casa e suspeito pelo assassinato do velho era, também, seu filho.  Satisfeito, voltei à Serra Verde com a caixa e os dois volumes da obra e, então, tive a curiosidade de saber se na biblioteca pública de Caruaru havia alguma coisa de Dostoiévisk, ao que encontrei alguns de seus livros, inclusive Os Irmãos Karamazov, numa edição da editora Abril, do início dos anos setenta, mas em perfeito estado de conservação. Por impulso, terminei por me cadastrar na biblioteca, levando retratos e comprovante de residência, saindo de lá com o exemplar de Os Irmãos Karamazov. Agora, tinha, não apenas um, mas dois livros. Melhor dizendo, três, pois na edição da Abril, a obra está toda em apenas um livro. Com as duas edições, dei-me ao prazer de comparar as traduções, lendo-as de forma simultânea em alguns trechos e isso foi um exercício interessante e que eu nunca havia experimentado. Ler, desta forma, traduções diferentes da mesma obra, foi um deleite e recomendo isso para que dispor de muito tempo ou tenha interesse acadêmico. Mas um livro atrai o leitor não apenas pelo seu conteúdo. A forma, sua apresentação estética, peso, estado e outras particularidades ligadas às sensações, influenciam muito o leitor. No caso, apesar de toda a beleza dos livros da Editora 34 e das dezenas de anos do livro da Editora Abril, da Biblioteca Álvaro Lins, este, por conta do papel utilizado em sua confecção, é menos pesado e menor, o que facilita e, muito, a sua leitura.

            As desventuras do degenerado velho Fiodor Karamazov, que se casou e enviuvou duas vezes, fazendo sofrer as duas mulheres, não criou nenhum de seus filhos e cada um deles terá um caráter diferente. Dmitri, o mais superficial dos filhos, gasta a vida atrás de mulheres e mesas animadas de jogos e vodka. Ivan, é um intelectual cínico que prega a inexistência de Deus. Alieksiéi, o mais novo, entretanto, simboliza a moral e a espiritualidade em larga escala, de natureza meiga. Além deles,  Smierdiákov, o criado epiléptico que, aparentemente, se contenta com seu destino de humilhações, mas que adoraria ir morar na França, deixando a velha Rússia e sua própria condição para trás. Do livro emergem, a todo momento, nos seus longos parágrafos, discussões filosóficas e religiosas que ainda hoje dialogam entre nós. O romance é ambientado na infeliz Rússia do século XIX, palco de intensos debates e conflitos sociais, com as ações se desenvolvendo em torno da vida, assassinato e heranças (material e espiritual) do velho Fiodor Karamazov.
Mil e poucas páginas ou quase oitocentas, a depender da edição, Os Irmãos Karamazov, aparentemente, não é uma leitura fácil, mas se você quiser conhecer um dos grandes clássicos da literatura universal, tirará bom proveito.  Li, em algum comentário da internet, no site da Livraria Cultura, que Freud teria dito que o livro é o ponto culminante da literatura universal. Talvez seja. Confira.
 
 
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 25/02/2012
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