Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
CapaCapa
TextosTextos
E-booksE-books
FotosFotos
PerfilPerfil
Livro de VisitasLivro de Visitas
ContatoContato
Textos

SILÊNCIO NO BORDEL DE TIA CHININHA

            Nas andanças pelos sebos do Recife, olhando capas e folheando livros, cheguei até SILÊNCIO NO BORDEL DA TIA CHININHA, de ELIZÁRIO GOULART ROCHA, publicado pela editora Globo, em 2001. A narrativa é inusitada, tratando do modo como uma mulher jovem e, ainda cheia de desejos e encantos, é deixada pelo marido nos rincões do Rio Grande do Sul, com uma penca de filhos e filhas, na casa da sogra. O marido em questão, chama-se Ataliba e ele é um personagem secundário na trama, mas que resolveu ir embora para o Rio de Janeiro, em busca de trabalho ou simplesmente para fugir de suas responsabilidades, deixando “a família entregue à própria sorte num lugarejo onde sorte era coisa improvável”. Somente esta situação seria capaz de permitir a construção de personagens ricos e densos sob o ponto de vista psicológico ou social, mas o buraco é mais embaixo. A desditosa mulher passa a conviver com seus filhos e filhas num anexo de um bordel, que é comandado pela sogra.
 
            EDUARDO BUENO, em resenha postada na internet, diz que se trata de uma novela enternecedora e que, mal termina, deixa no leitor a sensação de que a breve trama mal se inicia, fixando a imagem de seus personagens. O bordel, com suas cafetinas, cafetões, putas e freqüentadores de todos os matizes e classes sociais, sempre esteve presente na literatura brasileira, lembra o mesmo resenhista, através da lascívia bem-temperada de um Jorge  Amado ou esculhambação explícita de Nelson Rodrigues, passando pelas lentes da sociologia de Gilberto Freyre.
 
            Nas páginas que desse livro se conhece e a, depender das inclinações sexuais de cada um, se deseja Jovita, a mulher de Ataliba. Jovita,  nome feio, mas a vida é assim mesmo, se não é bonita, tem muitos encantos e, principalmente, muito fogo pelo corpo, mas sua sexualidade sempre foi reprimida pela moral. Aliás, vindo de uma família pobre, a moral era o único resquício de burguesia que possuía e, segundo o autor, para Jovita, lavar e passar as roupas da família era coisa mais importante e urgente do que cumprir os deveres de cama. Além de Jovita e da velha cafetina, se conhecerão os meninos e meninas: Daniel Vinicius, Ricardo Antônio, Márcia Clarice, Camila Luciane e Cleide Tâmara. Com a partida de Ataliba para o Rio de Janeiro, essa família foi viver sob a proteção clandestina de Tia Chininha, mãe de Ataliba. Se dizia naquelas paragens do Rio Grande que nenhum menino tinha virado homem sem passar pelas mãos da cafetina, daí o nome de Tia Chininha. Manter os filhos e as filhas imunes aos odores, contatos e problemas daquele antro era a tarefa mais importante para Jovita. Local freqüentado por bêbados, valentes, desenganados e, sobretudo, homens à procura de sexo, a vida de Jovita e de seu filhos e filhas era pautada por  incontáveis estratégias de sobrevivência.  A principal delas era o silêncio.
            “O silêncio forçado era difícil de manter. Jovita colocava um a um os filhos na cama, e a cada um recomendava fique quieto menino fique quieta menina ninguém pode saber de nossa presença somos filhos de deus num lugar do demônio”.
 Mas, além dos demônios que habitavam e transitavam no bordel, haviam os hormônios. Hormônios em ebulição de meninos e meninas, além do corpo e desejos da própria Jovita.  Porém, como disse EDUARDO BUENO, na sua resenha, talvez haja uma saída honrosa para Jovita e seus filhos e filhas, entretanto você só saberá se tiver coragem de entrar naquele cabaré. As portas estão abertas e a casa é toda sua, faça favor. Você irá gostar do livro de ELIZÁRIO GOULART ROCHA.
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 26/02/2012
Alterado em 26/02/2012
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Augusto N. Sampaio Angelim www.augustonsampaioangelim.recantodasletras.com.br). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários