Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
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O CASO DA VARA, um conto de Machado de Assis.
 
Em cerca de sete páginas e com duas mil, quatrocentos e poucas palavras, Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, o maior nome da literatura brasileira narra o conto “O CASO DA VARA”. 
O nome chama logo a atenção do leitor: que vara?  A vara, no caso, é uma vara, imagino de marmeleiro ou madeira parecida, utilizada para afugentar animais domésticos ou castigar pessoas.
 A narrativa, curta como deve ser todo conto, se passa num mesmo dia e praticamente no espaço de uma sala de antiga casa do Rio de Janeiro dos idos de 1850. Embora 1850 seja um ano muito distante, marca um dos melhores momentos econômicos e políticos do reinado de D. Pedro II. Naqueles tempos se preparava, de certa forma, o Brasil moderno e progressista que desejavam os empresários da indústria e do comércio e, principalmente, os republicanos. A igreja era um instituição marcante na vida do país, superando a própria monarquia.  E o personagem principal desse conto, é um jovem seminarista com nome de santo, Damião, que parecia predestinado a servir à causa da cristandade como padre, pelo menos na visão de seu rigoroso pai, cujo nome o autor não declina, resolve fugir do seminário.
Em rápidas palavras, o autor narra a angustia do rapaz pelas ruas do Rio sem saber direito para aonde se dirigir, já que supunha, com toda razão que, acaso voltasse para casa, seria levado de volta ao seminário, puxado pelas orelhas. Sem que se explique bem, como convém nos contos, o jovem seminarista deduz que a salvação poderia ser seu padrinho, João Carneiro. Melhor dizendo, poderia ser Sinhá Rita “uma viúva, querida de João Carneiro” sobre quem Damião “tinha umas idéias vagas dessa situação”, o que levou o fugitivo a se “aproveitar” da situação.  Aqui, começa a fina ironia machadiana: não se diz ao certo e, talvez, até se passe longe disso, mas o leitor começa a desconfiar que entre Sinhá Rita e João Carneiro há mais que conhecimento.
À chegada do moço, Sinhá Rita quase tem um troço: “Santo nome de Jesus! Que é isto?  A viúva, assombrada, diante daquele jovem de batina que entrara sem avisar em sua casa, demorou um pouco a reconhecer o seminarista. E quando ele, esbaforido, lhe explicou o ocorrido a reação da mesma foi tentar dissuadir o jovem mancebo contou o “desgosto que lhe dava o seminário” e de como estava “certo de que não podia ser bom padre”  e pediu que lhe salvasse. A viúva, sem compreender bem a intenção do suplicante, respondeu-lhe que não podia fazer nada e, ademais, não poderia se meter nos negócios do pai do moço, que tinha fama de homem zangado. Em vão a viúva tentou dissuadir o moço da beleza e santidade da vida de padre, mas o seminarista se mantinha firme e até ameaçou de se matar se tivesse de retornar à clausura.  Por fim, Sinhá Rita, que “tinha quarenta anos na certidão de batismo, e vinte e sete nos olhos” e o caráter alegre e animado, já estava a rir com o rapaz, mas sendo brava quando lhe convinha, sentiu-se ferida quando disse ao rapaz que este procurasse João Carneiro, seu padrinho e o garoto, astutamente, disse que até pensou nesta hipótese, mas duvidava que seu padrinho lhe atendesse ou (xeque mate) atendesse alguém. Ao ouvir isto, a viúva chamou o moleque de recados da casa e, voz de alterada, mandou que ele fosse chamar, imediatamente, João Carneiro.  “Anda, moleque” .
Enquanto esperavam o retorno do moleque e a chegada de João Carneiro, Sinhá Rita e o seminarista entregaram-se às anedotas leves que faziam sorrir as criadas da casa, especialmente Lucrécia, uma meninota de onze anos de idade, “negrinha, magricela, um frangalho de nada”.  Damião, o seminarista se apiedou de Lucrecia, talvez pela sua idade ou seu sorriso, ou porque se compadecesse do fato dela estar acometida de tosse ou, mais provável, porque a patroa já havia ameaçado-a: “Lucrécia, olha a vara!” , num aviso peremptório de que se ela desperdiçasse o tempo a ouví-los e sorrir, poderia ser castigada. 
Quando João Carneiro chegou que tomou conhecimento do que estava ocorrendo, sendo ele um “moleirão”, quase desmaiou. Sinhá Rita exigia que fosse convencer o pai de Damião a destinar o jovem para outra profissão que não fosse a de padre, pois se poderia muito bem servir a Nosso Senhor “cá foram também”.  O coitado do João Carneiro, conhecedor do mal humor do pai de Damião, desejou que o papa fechasse todos os seminários do mundo ou ocorresse um acontecimento extraordinário que o livrasse de cumprir a exigência de Sinhá Rita e, assim, “não se animava a sair, nem podia ficar”.  “Vá, vá, disse Sinhá Rita dando-lhe o chapéu e a bengala”.  João Carneiro saiu puxando suas pernas trêmulas, arrependido de ter nascido. Damião e Sinhá Rita voltaram a conversarem e se divertirem com as anedotas e ele até se esqueceu dos problemas,  mas, quando o tempo foi passando e a tarde caindo, ficou entristecido, pois “não fiava do caráter mole do padrinho. Contudo, jantou bem; e, para o fim, voltou às pilhérias da manhã” e já quando serviam a sobremesa chegaram cinco moças da vizinhança aprendizes da arte de manusear bilros e, mais uma vez Damião esqueceu das agruras, ouvindo-as conversarem e cantarem enquanto desenhavam seus bordados.  Quando as moças foram embora e a “tarde caiu de todo”, Damião foi acometido de grande tristeza e certeza de que não lograria êxito em sua empreitada e que logo chegaria ali a polícia a mando de seu pai, para levá-lo de volta ao seminário. Até fugir, sabe-se lá para onde, era algo difícil vestido de batina.
Estava o rapaz mergulhado em inteira melancolia quando chegou um criado de João Carneiro trazendo uma carta na qual anunciava que já tinha mantido contato com o pai de Damião mas este se mantinha irredutível, mas que voltaria a conversar com ele no dia seguinte.  Sinhá Rita, diante do conteúdo vago e inseguro da missiva, mandou-a de volta ao remetente, escrevendo no resto da meia página: “Joãozinho, ou você salva o moço, ou nunca mais nos veremos”.   
A noite já havia chegado e era hora da viúva recolher os trabalhos, mas notou que Lucrecia não havia cumprido sua tarefa e, acometida de raiva da menina, agarrou-a por uma orelha, chamando-a de malandra ao que a negrinha invocou Nossa Senhora. “Malandra! Nossa Senhora não protege vadias!”.  A criada conseguiu escapulir das mãos da patroa e correu, mas logo foi alcançada pela mesma que, então, procurou pela vara: “onde está a vara?”  e como a vara estava perto de Damião, ordenou que lhe entregasse a vara para bater na criada. Damião hesitou, pois tinha simpatizado com a menina, mas, lembrando-se do empenho de Sinhá Rita em lhe salvar do seminário, não deu ouvidos ao pedidos de Lucrecia de que lhe acudisse.
Damião,  Sinhá Rita, João Carneiro e Lucrécia são os únicos personagens nominados durante todo o conto, além das referências que são feitas ao pai do rapaz.  Damião representa o sentimento de mudança e a insegurança de um jovem diante da força do pai e, por extensão, do status quo, enquanto a trama entre Sinhá Rita e João Carneiro revela a existência de um romance entre ambos e que a sociedade da época, de certa forma, não se escandalizava com o adultério, pois não fosse assim, as moças da vizinhança não freqüentariam a casa de Sinhá Rita, embora desconfio que a tolerância decorresse de sua viuvez. Na outra ponta da narrativa, aparece Lucrecia submissa e vivendo praticamente em regime de escravidão, apesar desta já ter sido abolida formalmente.
Compondo o perfil psicológico dos personagens, o narrador (terceira pessoa) evidencia os desejos, a insegurança e o egoísmo do jovem (Damião), a vaidade típica das mulheres mundanas (Sinhá Rita), a pusilanimidade do adultero sem muitas posses (João Carneiro) e a condição aviltada da pequena Lucrecia. Alguém pode perguntar: egoísta? Damião era egoísta? Claro que sim, apesar de haver prometido a si mesmo que defenderia a pobre criada, não teve pruridos em entregar a vara a Sinhá Rita para que àquela fosse surrada.
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 11/03/2012
Alterado em 12/03/2012
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