Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
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O TEMPERO DA VIDA: ALMÔNDEGAS COM CANELA
 
 
 
 
            Acabo de chegar do mercado e uma rápida passagem por uma quitanda, trazendo duas sacolas com bacalhau, macarrão, ervas finas, cebola, tomate, açafrão, creme de leite e outras coisinhas. Irei preparar um jantar solitário. Na quitanda peguei e senti o cheiro dos temperos, para depois decidir comprá-los.
 
            Caminhar pelas ruas, mesmo de uma cidade pequena, com sacolas de feira não é algo corriqueiro e, alguém desavisado poderia pensar que isto não combina comigo. Ledo engano! Gosto das feiras livres e de cozinhar, se tenho tempo e motivação.  Depois do feriado prolongado este é um dia pacato e de poucas atividades no trabalho, o que me deixa com tempo, agora a noite, para tarefas não profissionais. Em regra, trago trabalho para casa, mas hoje não é o caso.
 
 Uma vez ou outra, numa freqüência mensal, resolvo por um avental e cozinhar. Acabei de colocar o bacalhau na água fria, já desfiado, para tirar o excesso de sal e separei todos os temperos, além de ter lavado e cortado as verduras. Agora, resta esperar o tempo necessário para que o bacalhau esteja no ponto de ir ser refogado. Depois, será misturar com o molho a base de creme de leite e ervas finas, jogando-o sobre o macarrão al dente. Finalmente, o preparo deverá ser colocado em uma travessa e levado ao forno para ser gratinado com queijo ralado e azeite de oliva. Quando começar a subir o cheiro, chegará a hora de me servir, abrir uma garrafa de vinho e, sozinho, comer, lembrar das coisas boas da vida e da saudade dos filhos, da mãe que mora distante, do pai que já se foi e outros sentimentos, alguns alegres e outros tristes, entre garfadas e um bom copo de vinho tinto chileno.
 
            Este jantar de hoje é uma espécie de tributo ao filme grego “ O Tempero da Vida”, de Tassos Boulmetis, que narra a história de um homem que nasceu na Grécia, mas ainda menino foi morar com sua família em Istambul, na Turquia. De uma família de comerciantes, o garoto passava as horas de folga na mercearia de seu avô, entre temperos, especiarias, carnes e uma infinidade de coisas comestíveis. O avô, um sábio, era uma espécie de filosofo culinário e ensinou Fanis a gostar de culinária, filosofia e geografia. Assim ele aprendeu que tempero não é apenas o que dar sabor aos alimentos, mas que eles podem representar sentimentos e paixões, além de muito dizer sobre sua origem geográfica e até sobre guerras.
 
Por entre sacos de grãos e tranças de alhos e cebolas, Fanis vai aprendendo os segredos da culinária, entre eles uma impagável receita de almôndegas com canela. Canela? Sim.  Eis uma receita deste prato, também chamado aqui de “almôndega marroquina”: 500g de carne moída de primeira; 1 cebola média picada; 3 dentes de alho picados; 1/2 colher de café de noz-moscada; 1 colher de café de pimenta Jamaica; 1 colher de café de canela em pó; 1 ovo; Salsa picada;Molho de tomate para cozinhar as almôndegas fritas. Misture bem todos esses ingredientes até fazer uma massa homogênea e deixe descansar na geladeira por alguns minutos. Depois, faça as pequenas bolinhas de almôndegas com carne e frite em óleo quente até ficarem douradas. Aqueça o molho e cozinhe as almôndegas fritas por alguns minutos antes de servir.  A canela, ensinou o avô ao menino, servirá para despertar atenção e respeito entre os convivas do jantar ou almoço, ocasião em que as verdades poderão ser ditas e ouvidas.
 
O velho passa muita sabedoria para o neto que, no futuro será um astrofísico, depois de ter sido e nunca deixar de ser um chef de cozinha. Leite e açúcar são os primeiros sabores experimentados pelos homens, já que dos seios materno estas duas substancias são vertidas em abundância. O mais importante é que o menino aprende que a vida, precisa de algum tempero, para lhe dar algum sabor, sob pena de ser apenas uma experiência medíocre. Por conta das guerras intermináveis entre turcos e gregos, a família de Fanis é deportada para a Grécia e lá, eles que são gregos, são recebidos como turcos e isto lhes trará muitas dificuldades e tristezas, suavizadas pelas reuniões em torno de suas mesas. A família não pode mais voltar a Istambul e Fanis cresce sem receber as visitas de sua primeira e inesquecível namorada e de seu memorável avô. Quando perto dos quarenta anos, Fanis volta a Istambul para o enterro de seu avô e então reencontra todo o seu passado e sua antiga amada, ocasião em que ele próprio percebe que sua vida requer muito mais tempero.
 
            Na abertura do filme, após umas cenas desinteressantes sobre astronomia, tem-se o entardecer em Istambul, com uma revoada de pássaros sobre mesquitas e minaretes, e então, se ouve o avô dizer ao neto, com uma evocativa música árabe quase se sobrepondo à sua voz: pimenta...aquece e queima. Canela é doce e amarga...como as mulheres. Sal...precisamos de sal em nossas vidas. 
           
 
 
 
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 02/05/2012
Alterado em 02/05/2012
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