Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
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A PROPÓSITO DA COMISSÃO DA VERDADE
(NÃO EXISTE VERDADE FORA DO PODER)
 
 
 
 
 
            A propósito da instalação da COMISSÃO DA VERDADE, a qual eu cuido logo em afirmar que conta com meu inteiro apoio, resolvi incursionar por um terreno mais instável ainda, do que a política, que é a filosofia, embora não tenha títulos que me autorizem a tanto, mas é que de vez em quando, fico ensimesmado com alguns acontecimentos e as dimensões dos valores que lhe são atribuídos. E, então, resolvo meter minha colher.
 
            A COMISSÃO DA VERDADE, talvez seja o último capítulo a ser contado e construído sobre a DITADURA MILITAR instaurada no país em 1964. Outros países que vivenciaram seus anos de chumbos, alguns deles bem mais dramáticos que a nossa triste experiência, também tiveram suas comissões.  Na Argentina, se calcula em 9000 pessoas, o número de desaparecidos. Naquele país, a comissão começou a funcionar logo após o fim da ditadura, tamanha a revolta do povo com os militares, não apenas porque lhes mataram tantos filhos, mas por verem outros sonhos frustrados e décadas perdidas na economia e desenvolvimento do país. Ao final de apenas nove meses de trabalho, a comissão Argentina apresentou o famoso relatório intitulado “Nunca más” e indiciou milhares de militares e colaboradores, os quais foram julgados pelo Judiciário e muitos deles condenados à prisão, inclusive os principais comandantes militares do período. Como a política no país vizinho é tocada no ritmo dramático e exagerado do tango, algumas condenações geraram enormes polêmicas, abrindo-se uma crise que culminou com a edição de uma lei de anistia geral em 1986, pondo fim aos processos. Mas, se a crise foi atenuada naquele momento, permaneceu latente e em 2005 os processos foram reabertos e mais pessoas foram julgadas e condenadas, entre elas grandes generais.
 
            Aqui no Brasil, os defeitos de nossa formação histórica e cultural tinham que servir para alguma coisa. Não somos tão dramáticos quanto argentinos e espanhóis, outro povo enormemente afetado por uma ditadura e nossas diferenças, sejam políticas ou religiosas, parecem importar menos que o amor aos nossos clubes de futebol. Assim, nossa ditadura, deixou um rastro bem menor de desaparecidos e se procurou manter, quase todo o tempo, uma aparência de legalidade. Não tiveram eles, os militares, a maldade e a loucura de patrocinar a adoção dos filhos de suas vítimas, a exemplo do que ocorreu em larga escala na Argentina e que deixou feridas que nunca poderão ser apagadas.
 
            Com a instalação da COMISSÃO DA VERDADE o governo da Presidente DILMA deixará sua marca, não ficando apenas com a sucessora ungida pelo mito LULA, assim como a lembrança do governo COLLOR será seu impeachment e de FHC, o controle da inflação. SARNEY, não tivesse permanecido por tanto tempo na luta diária da política, depois de ter sido presidente, poderia ou poderá, ser lembrado como o homem da transição. Mas cada governo e, principalmente os regimes, constroem suas verdades próprias. Durante as ditaduras, a voz que predomina é somente a oficial e, no período de 64 a 85, mesmo o markentig político sendo uma coisa tosca, comparado com aos dias atuais, cumpriu-se uma estratégia de legitimação da verdade dos militares.
 
            Mas não existe verdade fora do poder!  MICHELL FOUCAULT, em um de seus incômodos discursos, diz abertamente algo que alfineta a a muitos, especialmente os marxistas que primam tanto pelo controle dos corações e mentes. Segundo FOUCAULT existe uma economia política da verdade, pois o poder precisa de uma produção cultural para assentar suas verdades e tal economia é perceptível de várias formas, através de uma imensa difusão e consumo de idéias pautadas que circulam nos aparelhos de educação e informação, sendo produzida e transmitida principalmente nas universidades e instituições sociais, “enfim, é objeto de debate político e de confronto social (as lutas “ideológicas”). Evidentemente que a afirmação de abertura deste parágrafo guarda mais relação com os regimes ditatoriais do que com governos democráticos, como é o caso da Presidente DILMA.  Mas é certo que esta nossa comissão somente ganhou forma porque, sendo ela própria uma vítima direta dos anos de chumbo, deseja restabelecer a verdade, ao menos do seu ponto de vista, que também é o meu.
 
            Foucault é amaldiçoado por muitos, ante o caráter, muitas vezes, anarquista de suas idéias, mas ninguém pode lhe negar a genialidade como um pensador pós-moderno. Para ele, o saber liberta do poder e eu tenho plena certeza disto, daí entender que a COMISSÃO DA VERDADE chega em boa hora, pois cumprirá sua missão dentro de um ambiente democrático, onde os grandes meios de comunicações não se constituirão apenas em porta-vozes do governo, em que pese o ambiente da universidade, principalmente pública, neste momento, se encontrar bastante dócil apenas as verdades do poder.  Ademais e, principalmente, a internet deixará o debate mais transparente, e saberemos, finalmente, a verdade que deve ser conhecida.
 
 
 
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 20/05/2012
Alterado em 22/05/2012
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