Augusto N. Sampaio Angelim
Porque todo homem deve ter um lugar aonde ir (Dostoiévski)
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SOBRE A MORTE DE IVAN ILITCH
                       
 
                       
          “É com profundo pesar que Praskovya Fiodorovna participa a amigos e parentes a passagem de seu estimado esposo, Ivan Ilitch Golovin, membro da Corte Suprema, que deixou esta vida no dia 04 de fevereiro do ano da graça de 1882. O enterro acontecerá na sexta-feira, à uma hora da tarde”. Assim foi anunciada a morte de Ivan Ilitch um burocrata da justiça da velha Rússia, figura central do conto de Leon Tolstoi.
 
            O anuncio fúnebre encobre o epilogo de uma vida adulta marcada pela tristeza e desencanto. “Seus últimos dias foram terríveis”, disse a viúva a um dos poucos amigos que se deu ao trabalho de comparecer ao velório. 
 
          “A história da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis”. Eis o resumo que o autor faz da vida do personagem, para acrescentar que ele “era membro do Tribunal de Justiça e morreu aos quarenta e cinco anos” e, como magistrado, “cumpria com suas obrigações...comportando-se com dignidade...e cumprindo suas cada uma das tarefas de que era incumbido, com escrupulosa e incorruptível integridade, da qual muito se orgulhava”. Apesar destes valores, o conto nos revela a dor e a agonia de um homem desesperado diante da morte e da certeza tardia de que não viveu como deveria.
 
          Depois de uma infância feliz e uma juventude florescente, Ivan Ilitch é envolvido pelas tramas da vida, cujos fios lhe encaminham para a desolação e o sentimento de insignificância. O casamento será o ponto crucial de sua desgraça, que é agravada com o surgimento da doença provocada por um machucão nos rins.
 
          Como saída para seus dias penosos, Ivan se dedica totalmente ao trabalho, mas, este, também, muitas vezes, não lhe serve de lenitivo e sua vida continua no ritmo cadenciado e inexorável de um relógio.  
 
          Quanto mais longe vai ficando da infância, maiores são suas dores e temores.  Repassando a vida, o próprio Ivan nos fala que  “quanto mais longe da infância e mais perto do presente, tanto mais as alegrias que vivera lhe pareciam insignificantes e vazias. A começar pela faculdade de Direito. Nela conhecera alguns momentos realmente bons: o contentamento, a amizade, as esperanças. Nos últimos anos, porém, tais momentos já se tornavam raros. Depois, no tempo do seu primeiro emprego, junto ao governador, gozara alguns belos momentos: amara uma mulher. Em seguida tudo se embrulhou e bem poucas eram as coisas boas. Para adiante, ainda menos. E, quanto mais avançava, mais escassas se faziam elas. Veio o casamento, um mero acidente e, com ele, a desilusão, o mau hálito da esposa, a sensualidade e a hipocrisia. E a monótona vida burocrática, as aperturas de dinheiro, e assim um ano, dois, dez, vinte, perfeitamente idênticos. E, à medida que a existência corria, tornava-se mais oca, mais tola. É como se eu tivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isto. Perante a opinião pública, eu subia, mas na verdade, afundava. E agora cheguei ao fim – a sepultura me espera”.
 
          É difícil encontrar alguém resignado com a morte, pois esta, para a maioria de nós é desprovida de significado, sendo apenas uma enorme e incompreensível ausência. 
 
          O fim que se anuncia com a morte, por si só, tem o poder de provocar um vazio inexplicável que traz consigo muitos sentimentos deprimentes. Muitos vêem a vida de Ivan Ilitich como o burocrata da justiça que nunca foi além dos códigos e das leis, deixando de perceber a vida do povo transcorre independentemente da Lei ou, apesar dela.
 
          Inconformado, por saber que tudo estava se acabando, Ivan se pergunta: “Mais do que se trata afinal? Por que tem que ser assim? Não pode ser que a vida seja tão detestável e sem sentido. E se é realmente tão detestável e sem sentido, por que então devo morrer e morrer nessa agonia?. Sem respostas, ele conclui: “Há alguma coisa errada”.
 
          “A morte de Ivan Ilitich” é considerada por Nabokov como uma das mais perfeitas obras literárias da humanidade. Não posso fazer um julgamento deste, mas deixo aos meus leitores uma indagação: o que poderia ter salvado a vida de Ivan Ilitich?

Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 18/06/2012
Alterado em 18/06/2012
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